O ocaso da mediocridade

Divulgação/ Twitter @Palmeiras

Na letra fria do dicionário, a palavra medíocre designa o “que apresenta qualidade média; comum”. Fosse um dicionário ilustrado, daqueles tipicamente usados por estudantes de idiomas, o vocábulo poderia tranquilamente vir acompanhado de uma foto de Mano Menezes.

Muitos pelo Manobol

Ele é um dos principais expoentes do futebol deprimente que se fortaleceu e virou padrão no Brasil desde a derrocada de Vanderlei Luxemburgo em meados da primeira década do milênio. Um jogo que preza pelo 1 x 0, se pauta pela defesa e apresenta parco repertório ofensivo. Foco total no resultado, incapaz e também despreocupado de oferecer ao torcedor um bom espetáculo.

É o trabalho que não oferece nada além de resultados. Quando sem taças, sustenta-se por pouquíssimo tempo. Ao contrário, por exemplo, de Jorge Sampaoli no Santos. Nada ganhou em 2019, mas é merecidamente exaltado pela mídia e pela torcida do Peixe porque fez seu time jogar um futebol ofensivo, intenso e agradável.

Vale deixar bem claro que Mano Menezes não está nem um pouco sozinho nesta encruzilhada. Grande parte dos treinadores mais reconhecidos do país se encaixam como uma luva neste mesmo perfil traçado para o gaúcho. Ele aparece aqui a título de exemplo, por ser um dos nomes mais em evidência em relação ao tema tratado.

Um 2019 constrangedor

No Palmeiras, Mano durou cerca de três meses. Nove tropeços em vinte jogos. Para os objetivos do Palmeiras, é muito. Onze vitórias, a maioria delas sofrida. Mais do que resultados, o desempenho era desolador. A gota d’água foi ser atropelado pelo Flamengo no Allianz. O abismo que apareceu ali é maior do que a diferença entre os times, elencos e investimentos dos dois. Mas é do tamanho da distância entre a qualidade dos trabalhos de Jorge Jesus e de Mano Menezes.

No Cruzeiro, ele só durou três anos porque a maioria se contentou com um bicampeonato de Copa do Brasil. Mas boa parte da torcida celeste se irritava com as ideias de jogo, aquém do potencial do elenco e conflitantes com a história do clube, de DNA ofensivo. Neste ano, os resultados sumiram e Mano Menezes ficou a pé. Tem muita responsabilidade na péssima campanha cruzeirense na Série A.

Pouco futebol… e poucos títulos

Mesmo em uma perspectiva mais pragmática, levando em conta apenas os títulos e não o desempenho, o currículo de Mano não justifica o fato de ele estar há tantos anos trabalhando apenas com os melhores elencos do país. Considerando títulos de primeira grandeza (Brasileiro, Copa do Brasil, Libertadores), ganhou três Copas do Brasil (2009 com o Corinthians, 2017 e 2018 com o Cruzeiro). No Brasileirão, jamais conseguiu sequer disputar um título. Na Libertadores, só uma campanha digna de nota, no Grêmio, em 2007, quando alcançou a final e perdeu para o Boca Juniors. 

Já faz mais de uma década que o mercado o tem como um dos melhores e mais bem pagos técnicos do Brasil. A questão passa pela carência, escassez de boas opções internamente e também pela falta de criatividade e ousadia dos cartolas para buscar nomes de fora do país.

Mudança de patamar

Mano Menezes não é um péssimo treinador de futebol. Mas ele não passa de mediano. É competente operando dentro de sua visão sobre o jogo, mas não tem repertório. Quando com um plantel qualificado, é natural esperar algo além de uma lógica resultadista, e isso ele não consegue entregar. Hoje, seria um bom técnico para equipes médias ou que tenham objetivos médios, nas quais uma forma de atuar mais simples pode representar um atalho para ser competitivo. Mas não para o primeiro escalão do futebol nacional, que mira objetivos maiores.

A mediocridade reinou praticamente absoluta no futebol brasileiro por mais de uma década. Até que o advento de Jesus e Sampaoli por aqui catapultou o nível de exigência. Os primeiros sinais do ocaso estão aí.

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