Não, ele não é isso tudo

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Esse texto vem com esse timing porque vi algumas postagens recentes sobre o treinador (sempre o enaltecendo), já que na próxima semana ele completa 65 anos de idade. Além disso, tira um peso gigantesco das minhas costas soltar de forma aberta algumas verdades sobre o técnico rosarino, mas, como sempre, acabo me esquecendo de escrever. Marcelo Bielsa é, para mim, o treinador MAIS SUPERESTIMADO da história do futebol mundial. Abaixo explico o porquê.

Bom… vamos lá. Tudo começa em sua primeira passagem pelo Newell’s Old Boys, como treinador, após ter sido zagueiro da equipe por um curto período de tempo. Também curta foi sua carreira como jogador, diga-se de passagem, recheada de lesões. Pelos rojinegros, Bielsa teve o melhor momento de sua carreira – e logo no início dela – onde copou duas aperturas e um clausura (entre 90 e 92) e ficou quatro anos no Newell’s. Aí já se vão metades dos títulos de “El Loco” em sua extensa carreira.

Depois de sair da Argentina em direção ao México, onde ficou até 97 e fez campanhas abaixo da crítica por Atlas e América (sem títulos, obviamente) o treinador retornou para seu país natal e tentou a sorte no Vélez Sársfield, onde passou uma temporada e meia e ganhou mais um campeonato argentino, em 1998. Até aí tudo bem, já que foi exatamente o suficiente que o fez ganhar o gosto nacional que hoje tem.

Arriscando-se na Europa, o treinador foi para no pequeno Español, onde ganhou apenas duas de dez partidas que fez por lá antes de cair de paraquedas na seleção de seu país, já que, no fim de 98, Bielsa substituiu Passarella no comando da Seleção Argentina. Pode-se dizer, ainda, que não era favorito para a vaga mesmo vindo de um título nacional. Por lá, Marcelo finalmente teve maior fama internacional – já que era majoritariamente reconhecido pelo que havia feito no Newell’s e no Vélez – e teve a sorte de conviver com jogadores que enchem sua bola até os dias de hoje. Bielsa até chegou a fazer uma boa eliminatória pré-Copa, classificando-se em primeiro lugar, mas passando absoluto vexame na Copa da Coréia/Japão. Em seu último ano, 2004, só ganhou a medalha de ouro olímpica em Atenas por conta de um time recheado de craques em início de carreira, como Mascherano, D’Alessandro, Tévez, Saviola, entre outros.

Depois disso, Bielsa até que teve passagens mais marcantes na sua carreira, mas que o fizeram ganhar um total de zero títulos a mais. Passou pela seleção chilena, Athletic Bilbao (onde teve até um aproveitamento bom), Olympique de Marseille, Lazio, Lille e agora no Leeds United, onde acaba de subir para a Premier League (outro feito para superestimá-lo ainda mais).

É aí que entra uma ordem de coisas que realmente não me cabe entender, aparentemente. Para vários dos treinadores de ponta atualmente, Marcelo é o “técnico dos treinadores”, já que ele foi a grande referência para vários dos que hoje o intitulam como mentor. Fato é que a “pressão alta” e o “futebol total”, aplicados utopicamente por Bielsa, nunca funcionaram nem a ponto de levar o treinador a um patamar de técnico mediano no futebol mundial. Mas então por que Bielsa é tão usado como referência para tantos treinadores e ex-jogadores mundo afora? O próprio Guardiola é um dos que endeusa o argentino há um tempo considerável, sempre enfatizando que acha ‘El Loco’ o melhor técnico do mundo, mas nunca quotando as razões de forma cabal, apenas argumentando que Marcelo trabalha bem seus jogadores.

Trata-se, simplesmente, a partir do que se vê em suas entrevistas, de um treinador “insuportável” e insistente no que tange à manter a ordem na casa. Se, entretanto, a obsessão “científica” de Marcelo pelo futebol falou mais alto que o que ele construiu durante todo esse tempo, quem sou eu para discutir – ainda mais sem conhecê-lo – o que também não inibe minha vontade de entender o fascínio que têm pelo homem.

Consultando alguns sites para embasar esse texto, cheguei a ler, no início do corpo do texto de um deles, que Bielsa “revolucionou” o Leeds em diversas maneiras. No parágrafo seguinte, entretanto, o autor fala: “[…] Agora, sobre títulos, o papo é outro. Bielsa tem apenas 5 taças em 30 anos de carreira”. Acho que não preciso falar mais nada.

Em uma comparação bem pertinente, diria que Ranieri, dono da maior conquista entre clubes da história do futebol, com o Leicester, por esse simples fato já fez mais que o argentino em toda sua carreira. De forma direta, entendo que os treinadores enxergam Marcelo Bielsa como uma religião, aquela a quem dever seguir e ser sempre gratos. Mesmo assim, é claro e aparente que a maior fama de Bielsa se dá por figurar em livros de técnicos e ex-jogadores, já que claramente ele está num patamar bem abaixo do que o colocam.

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