Explicando o Inexplicável

Explicando o Inexplicável

07/03/2019 0 Por Gabriel Andrea

Nada como um dia após o outro. Esse é o verdadeiro cartaz do Manchester United para o mundo nesse dia de ressaca pós classificação. Mais uma vez, para variar, incontáveis opiniões cravando o time francês de cara nas quartas-de-final caíram por terra. Que dia, meus amigos!

De fato, claro, os motivos eram óbvios: o United foi para campo com uma desvantagem de 2 gols, ausente de nove peças, repleto de garotos no banco de reservas e com um time completamente desestruturado, em todos os sentidos possíveis. Foi exatamente aí que entrou em cena o excepcional trabalho de Ole Gunnar Solskjær, que lidou com todas as baixas e adversidades e conseguiu fazer três gols no temido time de Paris, que, até então, havia levado o mesmo número de gols nas 15 partidas anteriores na temporada.

Posso dizer, até com certa tranquilidade, que para cada 50 jogos entre as duas equipes na situação de ontem, o Paris Saint-Germain bateria o time inglês em 95% das oportunidades. O trama estava encaminhado, mas ainda haviam os tais 5% que me faziam acreditar.

Para começo de conversa – e de desânimo total para os torcedores do United – o jogador de linha referência do time ficou de fora da partida, suspenso. Paul Pogba poderia fazer frente à linha de volantes e agregar muito para os Devils, como sempre faz, sendo o jogador mais decisivo da equipe. Jogar sem ele, portanto, foi um desafio e tanto para Solskjær. Além do volante, figuraram na lista: Jesse Lingard, Ander Herrera, Juan Mata, Nemanja Matic, Alexis Sanchez, Antonio Valencia, Matteo Darmian, Martial e Phil Jones.

Pogba, peça fundamental do maior time de Manchester, ficou de fora contra o PSG por suspensão

Com tantas baixas, nasceu uma chance gigantesca para alguns jogadores que não vinham recebendo tantas oportunidades na temporada até então. Solskjær testou assim um esquema com cinco homens mais recuados. Lindelof, Smalling e Bailly foram, ao menos no papel, os zagueiros da equipe. Na prática, o zagueiro marfinense foi o lateral-direito da equipe, já que Young atuou como um ala. Do outro lado, como o único defensor canhoto do time, Luke Shaw não pode se dar tanto ao luxo de subir ao ataque com a constância que está acostumado.

Na volância, McTominay se juntou aos questionados Fred e Andreas Pereira para tentar segurar e ao mesmo tempo sair para o jogo com a qualidade que o placar reverso pediria. Para completar, Rashford e Lukaku – ambos em excelente fase, foram os homens de frente do United. De Gea, claro, era o homem de confiança no gol dos Red Devils.

E quem diria… três erros individuais de uma equipe que comete os mesmos erros em uma temporada inteira. A “injustiça” do futebol é algo que me faz gostar dele cada vez mais. Ninguém ganha antes de jogar: isso é mais que um dilema.

Na metade da primeira etapa, Bailly, que sentiu a coxa, deu lugar a Dalot, que aumentou absurdamente a produção do time inglês na partida. Foi neste exato momento que saiu o primeiro gol, numa (das) falha(s) de Thilo Kehrer – que recuou uma bola sem olhar para o goleiro Buffon.

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Depois de crescer nos últimos jogos, Lukaku manteve o bom momento e foi fundamental no jogo em Paris (foto: Man Utd)

Daí em diante o Paris acordou e botou o United na roda, sem dó nem piedade. Marquinhos, para mim o melhor jogador em campo no primeiro confronto junto a Mbappé, fez, de novo, uma partida impecável. E foi justamente nessa rápida melhora do time francês que saiu o empate.

O coelho saiu da cartola para o Manchester no momento exato. Ponto forte de Rashford, seu chute de longa distância foi essencial no único momento em que o atacante o usou. Contando com a falha de Buffon (que dia péssimo para o goleiro), Lukaku fez seu segundo gol na partida, fruto de muito oportunismo.

O United foi inteligente para segurar o resultado até o intervalo. O meio-de-campo foi absurdo e absoluto no jogo. Apesar disso, McTominay deixou a desejar. Não porque eu esperava mais do jogador (que realmente não tem muito a entregar), mas pela falta de ganas de procurar algo a mais e colaborar para a produção ofensiva do time.

Achei que o Fred fez o papel de dois jogadores. Sei que o McTominay tem poucas características ofensivas, mas faltou – e muito – apoiar no ataque quando teve a chance. Solskjær não o sacou pra não mudar o esquema e pra não botar os garotos na fogueira, infelizmente.

Além da consciência tática e de terem que contar com a sorte até o último minuto – sem contar com a necessidade do terceiro gol – Solskjær “faria a cabeça” de seus comandados em busca do que parecia ser impossível. Voltando na sorte, essa foi extremamente necessária para o desenrolar das coisas. Mbappé e Verratti perderam duas bolas que poderiam (e certamente seriam) fundamentais para o time parisiense selar o placar na frente de seu torcedor.

O final de partida, como já era de se esperar, prometia de tudo. Com o ataque extremamente desgastado e partindo para o tudo ou nada,
Solskjær colocou os garotos Chong e Greenwood nas vagas de Andreas e Young. Mas o protagonista acabou sendo outro: o inesperado Diogo Dalot. Faltando dois minutos para o final da partida, o lateral português chutou de longe – bem aos trancos e barrancos – direto no braço de Presnel Kimpembe, que estava na linha da área. VAR acionado e penalty assinalado. Era o cenário dos sonhos para o Manchester United. O cobrador, independentemente de quem fosse, iria do inferno aos céus (ou o contrário) em segundos. E que responsabilidade Marcus Rashford ali assumiu. O garoto de 21 anos, nascido e criado na base do United, fez o impossível acontecer
.

Era visível na cara de 99% dos torcedores do PSG e do Man United a total surpresa com o que estavam vivenciando, tudo à luz e cores. Que momento para ser torcedor do United. O underdog, que há menos de 3 meses era a grande chacota inglesa sob o comando de Mourinho, vivia mais uma glória em nível continental. Não só deixamos um dos favoritos para trás, mas o fizemos sob diversas circunstâncias. Nada é capaz de explicar.

Solskjaer, enfim, nada de braçadas largas para firmar um contrato longo com o maior clube inglês. São 14 Vitórias, dois empates e apenas uma derrota – contra o próprio PSG. São 9 vitórias consecutivas fora de casa, recorde no clube.

De agora em diante, que venha qualquer um. O que ficou provado já ficou para trás: absolutamente nada é subestimável no futebol, quem dirá o Manchester United. História se constrói, não se compra. Como diria Eric Cantona: “Ninguém é maior que o Manchester United!”.